A Sabedoria Ancestral de IFÁ: Os Mistérios de ORUNMILÁ e OLODUMARÉ
A Sabedoria Ancestral de IFÁ: Os Mistérios de ORUNMILÁ e OLODUMARÉ
ORUNMILÁ: O Testemunho da Criação e o Portador da Sabedoria Divina
ORUNMILÁ é o testemunho de tudo que foi criado por OLODUMARÉ, o Deus Supremo da cosmogonia Yorubá. Ele é o profeta divino, aquele que presenciou e conhece todos os segredos da existência humana desde o início dos tempos.
Segundo as narrativas de IFÁ, quando OLODUMARÉ criou o mundo, ordenou que ORUNMILÁ estivesse presente para testemunhar sua criação. A missão de ORUNMILÁ na Terra seria a de levar a salvação à humanidade através de IFÁ, sendo o encarregado de transmitir os desígnios divinos de OLODUMARÉ. Assim, os seres humanos poderiam compreender a razão de sua existência e buscar sua evolução espiritual através do destino que lhes foi sentenciado.
De acordo com os ensinamentos de IFÁ, aqueles que evoluírem e cumprirem sua missão terão condições e sabedoria para vencer a morte prematura, o infortúnio, as doenças, as tragédias, a perda e o fracasso, alcançando a realização plena. Caso não evoluam, enfrentarão os males do mundo, criados por OLODUMARÉ como provas na jornada da vida. Fracassar nessas provas resultará em ter que renascer em outra existência, com um destino ainda mais desafiador, por não ter superado as provações impostas anteriormente.
ORUNMILÁ é um ORIXÁ de suma importância na cultura Yorubá, sendo considerado o ORIXÁ da mais alta sabedoria e o maior entre todos os ORIXÁS, dado sua grandeza e importância para a humanidade. Ele foi a quarta divindade criada por OLODUMARÉ e incumbido da missão de salvar a humanidade na Terra. ORUNMILÁ é tão sábio que é o único capaz de interpretar a palavra de OLODUMARÉ, que é IFÁ.
É importante ressaltar que ORUNMILÁ é uma entidade espiritual, enquanto IFÁ é um sistema religioso completo. ORUNMILÁ é o intérprete entre OLODUMARÉ e toda sua criação, o único que conhece o princípio e o fim de tudo que existe no mundo.
O Sistema Sagrado de IFÁ
Dentro de IFÁ estão contidos todos os segredos da vida e da morte, bem como de todas as coisas existentes no mundo. IFÁ é onde OLODUMARÉ registrou toda sua criação, sendo o próprio raciocínio divino. Com o auxílio da palavra e da sabedoria de IFÁ, os seres humanos são munidos do saber necessário para sair vitoriosos dos obstáculos existentes no mundo, como o infortúnio, as tragédias, a morte, e, principalmente, para superar o destino que lhes foi recomendado, alcançando assim o êxito na vida.
IFÁ é a cosmologia completa do contexto Yorubá, um sistema adivinhatório composto de crenças ritualísticas que formam seu contexto filosófico e todo o sistema teológico, baseado na essência do povo Yorubá. Esse sistema narra a existência humana através de pontos fundamentais, como os ORIXÁS.
Os ORIXÁS e o Contexto de IFÁ
Quando falamos do contexto Yorubá, devemos ter a consciência de que parte dele são os ORIXÁS, pois os deuses Yorubás são os ancestrais divinizados desse povo. Suas origens e seus segredos compõem parte do sistema de IFÁ, deixando claro que a verdadeira essência e segredo de cada ORIXÁ provém desse sistema sagrado.
Em contrapartida, os ORIXÁS passaram a existir graças ao sistema teológico de IFÁ. É correto dizer que os ORIXÁS nascem de IFÁ, pois em seu nascimento receberam um ODÚ (caminho ou destino) para se reconhecerem como tais, compreendendo então sua missão com a humanidade e com OLODUMARÉ. Os ORIXÁS diversas vezes, dentro dos escritos de IFÁ, recorreram à sabedoria de ORUNMILÁ no intuito de se encontrarem no mundo.
É importante frisar que não existe ORIXÁ sem IFÁ e nem IFÁ sem ORIXÁ, pois o contexto de IFÁ é formado por tudo que existe no panteão Yorubá, inclusive os ORIXÁS. IFÁ é o princípio de todas as coisas, a própria criação divina.
A Essência dos ORIXÁS e a Natureza Humana
Dentro do entendimento teológico Yorubá, os ORIXÁS foram criados por OLODUMARÉ para auxiliar o ser humano em sua trajetória na Terra. Eles representam toda a essência do homem, dividida em divindades que personificam diferentes aspectos da natureza humana.
OLÓFIN (outra denominação de OLODUMARÉ) criou a essência da humanidade em sexo masculino e feminino, com suas virtudes e imperfeições. Para representar cada uma dessas características, ele criou os ORIXÁS, no objetivo de compor a essência humana completa. Assim, OLÓFIN dividiu as divindades com suas virtudes e defeitos, pois precisava manter a imagem de DEUS intacta, e também porque deveríamos ser guiados por deuses que fossem sagrados, mas que fossem como nós, espelhos e imagens do ser humano em um contexto geral.
Dessa forma, surgiu OGUN, o ORIXÁ trabalhador, valente, guerreiro, cuja força e raciocínio se apoiam na brutalidade, mas que também teria dificuldades em outros aspectos da vida. Criou OXUM, deusa da sensualidade, do amor, da vaidade feminina, da complacência, da mulher intuitiva e de grande saber, entendendo que da vaidade nasce a inveja, do amor nasce a carência, e assim por diante. Ao depararmos com a essência de nossos sagrados deuses, compreendemos que não existe nada perfeito no mundo.
Os ORIXÁS são os progenitores da natureza humana, e cada ser humano tem um como base de seu nascimento. De acordo com o ORIXÁ TUTELAR, explica-se porque alguns têm dificuldades para certas coisas e outros não, uns sofrem mais por um motivo e outros não. Devemos entender que o papel do ORI (a essência individual) nesse cenário é manter a razão e o equilíbrio diante de tal natureza interior.
O ORI e o Destino Individual
Quando o ser humano vem ao mundo, ele traz consigo seu ORI INDIVIDUAL, seu próprio raciocínio, mas esse raciocínio se limita ao contexto terrestre. Logo, seu ORIXÁ TUTELAR é inserido em seu ORI, acoplando ao mesmo a essência inicial (virtudes e imperfeições) de um ser humano que trilhará pela Terra, com traços característicos desse ORIXÁ. Em seguida, o indivíduo recebe seu ODÚ, ou seja, sua razão, propósito de nascimento e destino na Terra. E é diante de sua trajetória na Terra que essas virtudes e imperfeições se manifestam.
O Papel Fundamental do ORI
Sabemos que todos temos ORI INDIVIDUAL, que diferencia um ser humano do outro. O que devemos entender é que nossa essência base vem de nosso ORIXÁ TUTELAR, por isso ele é chamado ORIXÁ ALAGBATORI. IFÁ narra que não há ORIXÁ maior que nosso próprio ORIXÁ TUTELAR.
O ORI é o ser individual de cada um, porém depende de sabedoria para se evoluir e de seu ORIXÁ TUTELAR para guiá-lo em sua trajetória terrestre. Quanto mais o ORI se desenvolve, melhor equilíbrio e razão ele encontrará dentro da essência base (virtudes e defeitos) de todos os seres humanos, fazendo as boas escolhas na vida.
Quando o ORI é fraco ou debilitado, fica vulnerável à parte negativa de sua essência, sendo dominado facilmente, em estágio avançado, pelos vícios das drogas, bebida, roubo, maldade, etc. Em outros estágios, torna-se uma pessoa frágil diante das vicissitudes da vida, não tendo força suficiente para superar seus conflitos, fracassando continuamente em todos os pontos da existência.
O ORIXÁ TUTELAR é quem fortalece esse ORI, enquanto IFÁ é quem proporciona a sabedoria para que o ORI se desenvolva, encontrando forças para se superar e ser um vencedor. Lembrando que nossos ORIXÁS são os responsáveis por nos guardar neste mundo, eles são encarregados de rogar por nós aos pés de OLODUMARÉ (DEUS).
O Culto aos EGUNS e a Continuidade da Existência
IFÁ também é composto pelos EGUNS, que seriam os espíritos de tudo que existe no mundo, os ancestrais, a origem da morte e da reencarnação. O EGUN representa a própria continuidade, pois o espírito nunca morre, se mantendo vivo até sua reencarnação, perpetuando assim a descendência e o mundo paralelo aos vivos. O EGUN é o início de tudo, pois da morte nasce a vida, como a dinâmica da criação.
Sendo assim, o culto aos EGUNS é fundamental para todos que pertencem aos Cultos Yorubás. A matéria dos EGUNS é extensa e profunda, revelando aspectos importantes sobre a continuidade da existência após a morte física.
A Abrangência de IFÁ
O passo do ser humano sobre a Terra, a forma masculina e feminina, seus conflitos, sua procriação, seu destino, seu nascimento, sua vida e morte, em conjunto com os ORIXÁS e EGUNS, aliados às crenças, à liturgia religiosa Yorubá, aos ritos, à filosofia e ao maior sistema de adivinhação existente, compõem o que chamamos de IFÁ.
Este sistema sagrado abrange todos os aspectos da existência humana, desde antes do nascimento até depois da morte física, guiando os indivíduos em suas jornadas terrenas e espirituais. É uma cosmologia completa, um caminho de sabedoria ancestral que permeia todos os aspectos da vida.
O Oráculo Sagrado de IFÁ
É com a utilização do oráculo de IFÁ que o BABALAWO consulta e se conecta com a espiritualidade do grande profeta ORUNMILÁ, alcançando assim a sabedoria contida nesse sistema milenar.
O Oráculo de adivinhação de IFÁ é utilizado de duas formas diferentes: uma é através dos IKINS, sendo esta mais utilizada nas consagrações; a outra é com o EPKUELÉ (OPELÉ), uma corrente com oito elos de semente sagrada, onde através dela alcançamos a configuração que expressa a saída de um determinado ODÚ de IFÁ, pelo qual ORUNMILÁ estabelece sua adivinhação.
Os IKINS são dezesseis sementes de dendezeiro que também são utilizadas para a adivinhação. Esses instrumentos sagrados, juntamente com o vasto conhecimento transmitido pelos ancestrais, permitem que os BABALAWOS interpretem as mensagens de ORUNMILÁ e orientem os consulentes de acordo com a sabedoria de IFÁ.
A jornada de IFÁ é um caminho de autoconhecimento, evolução espiritual e harmonia com as forças da natureza e do universo. É uma busca pela compreensão de nossa essência, de nosso propósito e de nossa conexão com o sagrado. E é através da sabedoria ancestral preservada nesse sistema milenar que podemos encontrar respostas, orientação e o caminho para alcançar a realização plena em nossa existência terrena.




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